quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Impossível



O Impossível, produção espanhola com Naomi Watts Ewan McGregor, é um filme que tenta manipular as emoções dos espectadores, utilizando-se de um acontecimento naturalmente grandioso e triste, o tsunami que assolou a Tailândia em 2004. Quando ondas gigantescas varrem uma costa litorânea do mapa e isso ainda está presente na memória das pessoas, fazer chorar não se torna uma tarefa tão difícil, mas o filme não se limita a isso. O longa é um retrato da dor e superação de uma família que está no centro de uma tragédia, expondo a fragilidade física e emocional em busca de união e da sobrevivência.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Heleno



Formado em Direito, impecavelmente alinhado, frequentador da alta sociedade e dono de um temperamento explosivo. Essas são algumas das adjetivações possíveis a se atribuir ao quarto maior artilheiro da história do Botafogo, o jogador Heleno de Freitas. Ele carregava o time nas costas e tinha consciência disso, o que o tornava bastante esnobe e grandiloquente, e também o iludia e o fazia se considerar um super-herói indestrutível, sem ser parado dentro ou fora de campo. Talvez, esse tenha sido o grande erro do jogador, que foi do céu ao inferno em uma vida que terminou aos 39 anos e é apresentada no longa Heleno.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Réquiem para Laura Martin


Pode-se pensar que o filme Réquiem para Laura Martin é sobre um triângulo amoroso, mas é muito mais do que isso. É sobre dores e cicatrizes, principalmente as da alma. Mostra o presente que não se desapega do passado e, tampouco, vislumbra um futuro. Apresenta-nos amarras emaranhadas na culpa e no desespero, e que tornam as promessas possíveis, mas com preço bastante caro a se pagar. É uma realidade pulsante e amarga que oscila entre amor, ódio e dor, sentimentos que habitam em todos, mas que se sobressaem quando há fraqueza e insatisfação em um relacionamento com outro ou consigo mesmo. 

Réquiem para Laura Martin conta a história de um maestro (Anselmo Vasconcelos) que tenta a todo o momento reafirmar sua identidade em uma vida de mentira. É casado com Raquel (Claudia Alencar) e tem uma amante, Laura (Ana Paula Serpa), a quem dá o título de musa inspiradora, quando na verdade é ela a dona do talento que o faz se sentir bem sucedido e o ludibria. O maestro é um homem que vive de aparências e continua em um casamento falido por conta do sobrenome e dinheiro da mulher. Sozinho ele não é ninguém, e com essas duas mulheres ele se transforma na projeção idealizada em sua cabeça.



Laura, acometida de uma doença degenerativa, é levada para a casa do maestro e de Raquel. As duas mulheres duelam, mesmo a amante estando inconsciente. Uma é dona de todas as atenções do amado, a outra é amargurada, vazia e solitária, que aceita tudo pensando em um futuro diferente. Laura está sendo consumida fisicamente pela doença, mas Raquel está mortificada há muito mais tempo, carrega dores crônicas da alma. Essas aflições são sutilmente transpostas na tela e angustiam o espectador, principalmente quando a solidão de Raquel se materializa em uma das cenas que lança Claudia Alencar a título de protagonista, tamanha força e impacto que a personagem ganha em cena.

Anselmo Vasconcelos está muito bem como maestro, parece resgatar memórias do personagem e de uma vida que não foi a sonhada, mas é a que precisa ser vivida. Apesar de os três personagens principais terem sido bem construídos, o ator e a Ana Paula Serpa não têm química alguma e fica um tanto desconexa a relação entre eles. É muito difícil ser tocado pelo amor dos dois. Diferente do sentimento imposto por Claudia Alencar que transforma a fragilidade de sua personagem em um gigante em cena, e que traz veracidade ao lado de Vasconcelos.


Dirigido por Paulo Duarte e Luiz Rangel, Réquiem para Laura Martin é dono de um roteiro consistente e discute traição, amor, possessividade, egoísmo, mentiras e insatisfações de maneira bem conduzida. Peca em alguns pontos, como a péssima participação de Luciano Szafir, mas nada que prejudique o filme. É um belíssimo trabalho com ares até mesmo “almodovarianos” e mexe com as emoções dos espectadores. Fica a torcida para que tenha relevante distribuição comercial e possa ser visto por muitos.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Vincent


Vincent foi o primeiro trabalho de Tim Burton nos estúdios Disney. O curta é um projeto extremamente pessoal e que, a primeira vista, não se enquadra nas propostas do estúdio já que possui caráter extremamente sombrio. O filme retrata a infância do garoto Vincent Malloy, fã de Vincent Price e Edgar Allan Poe, que se deixa ser absorvido pelos sonhos mais negros dos textos de Poe, sempre se imaginando como um personagem negro de Price. Entre o sonho e a realidade, Vincent emerge em um mundo que a seu ver é perfeito, com características taciturnas que o atraem e tornam aquelas idéias muito mais interessantes do que a vida fora da fantasia.

Vincent arrebata o espectador para dentro dos seus sonhos, escapando da realidade na qual pensa não se encaixar. É mais um personagem do universo de Burton que está distante dos padrões exigidos pela sociedade, é uma figura que vai além das convenções, como Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e Willy Wonka. É mais uma criatura que traz reflexos de seu criador, alguém deslocado, de imaginação fértil, sombrio e que se expressa de maneira bastante criativa, seja por meio da arte ou de brincadeiras, mas sempre trazendo muito do sonho para a realidade.

Vincent traz a essência de Burton e homenageia seus heróis. E embora seja um dos seus trabalhos iniciais, é recheado de elementos recorrentes aos filmes posteriores como o jogo de luz e sombra, o universo distorcido e próprio, e características horripilantes que são juntas mostram o quanto o cineasta trabalha com o expressionismo alemão também conhecido como caligarismo. E para ajudar a compor toda a história do universo aterrorizador de Vincent, há a presença de outro personagem fundamental, mesmo estando presente apenas com sua voz em off. É o narrador cuja voz é emprestada pela lenda do cinema de terror e ídolo do protagonista, o próprio Vincent Price.

Vincent é mais um filme marcado pela estética muito própria de Tim Burton e que, feito em poesia, apresenta-se na sua musicalidade sombria perfeita. Vincent Price e Edgar Allan Poe fizeram Vincent sonhar, e Tim Burtom compartilha esses sonhos com os espectadores que também podem fugir de suas realidades, mesmo que por um curtíssimo espaço de tempo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Xingu

O ser humano é irracional diante do que lhe é apresentado assustadoramente como novo, e isso é o que acentua ainda mais as páginas marcadas por conflitos ao longo da história. Xingu mostra exatamente o choque entre dois mundos, o do nativo e o do homem branco, ambos agredindo de alguma forma a cultura do outro, mas apenas um por escolha.


O filme apresenta uma aventura que mudou radicalmente a vida de três irmãos, Cláudio, Leonardo e Orlando Villas-Bôas, e que refletiu na história do Brasil. Por meio do trabalho desses três homens, outro Estado foi erguido dentro do país: o Parque Nacional do Xingu. Nele, há mais de 50 anos, encontram-se tribos indígenas amparados pela lei, para que tenham sua cultura respeitada e não sejam oprimidos pelo universo que não compõe suas identidades, tendo a ganância de latifundiários, madeireiros e políticos inescrupulosos como algozes. A história dessa saga, que uniu dois povos de uma mesma nação, é o pano de fundo do filme.

As crianças que se encantaram com Castelo Rá-Tim-Bum e os que se emocionaram ao ver O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, conhecem a qualidade do trabalho de Cao Hamburger e sabem que não se decepcionarão com Xingu. O cineasta não tem a pretensão de transportar um olhar épico para as telonas, e sim tornar a relação dos irmãos com os indígenas a mais intimista possível, seja por meio da aventura política liderada pelos Villas-Bôas ao defender os direitos dos índios diante do avanço social imposto pelo Governo, ou na personalidade de cada um dos irmãos e a maneira como enxergavam tudo o que estava acontecendo.

É claro que essa abordagem só foi bem sucedida pelo brilhante trabalho do elenco principal, formado por Caio Blat¸Felipe Camargo e João Miguel. Eles foram extremamente sensíveis na composição de heróis que diante daquela situação sentem a amargura, o medo e a solidão que os marcariam de maneira irreversível, mesmo tendo conseguido proteger a cultura indígena da interferência danosa de pessoas gananciosas. Não que os índios não tenham sido extremamente violados, mas apesar de toda a violência, tiveram três vozes em suas defesas. Vale destacar o trabalho de João Miguel, o irmão do meio que protagoniza o filme. Ele é quem mais sente a responsabilidade de lutar contra a aculturação dos índios e de conseguir a terra para que possam viver em paz. Sem dúvida, sua interpretação é um dos grandes fortes do filme.

Hamburger não conduz Xingu de maneira documental, e esse é o grande acerto. O filme possui fluidez na narrativa, mesmo se atendo aos fatos históricos. É um filme-documento com uma aventura que empolga o espectador, há conflitos reais e bem conduzidos. É um filme lapidado e muito bem articulado, principalmente pelo belíssimo trabalho de coesão da equipe com os índios não-atores que representam suas verdadeiras histórias. Há uma genuinidade natural na composição do filme para que o espectador se sinta ambientado e se aproxime da história.

Ao final de Xingu fica a impressão de que não houve avanço nenhum com relação a questão da exploração desenfreada em prol do crescimento econômico. O que separa o presente vivido com a construção Belo Monte do passado não tão distante retratado pelo filme? Xingu pode até ser básico em sua defesa, mas é bastante atual.


 
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